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Um conto sobre coisas mortas e cinzas

por, Juliana Daglio

Ela contemplava o fantasma havia horas. Do alto de sua janela no segundo andar, por entre as grades enferrujadas, fitava a figura esguia em pé no meio na neblina, olhando-a de volta com aquele ar cinzento, amortecido, meio transparente.
Já não sabia mais dizer desde quando isso vinha acontecendo, mas era muito. Era difícil definir se um dia não tinha se deparado com aquela alma todas as vezes em que olhava pela janela. Toda sua vida, agora, se resumia a isso, como se não houvesse nada nela que não se relacionasse com a aparição em seu jardim, que desde que surgira, não se sabe quando, tomara tudo para si.
A garota na janela, assombrada, muitas vezes perguntou-se se não deveria estar gritando, chorando, apavorada. Mas não conseguia. Apenas se colocava em pé à janela e mirava no fantasma, perscrutando cada parte visível dele, tentando desvendar seus mistérios.
Por algum motivo sabia que ele não se aproximaria mais que isso. Que ficaria ali, a devolver seu olhar. Também não se atrevia a descer para o jardim e olhar mais de perto. Havia um tempo incontável que não ia lá, onde seus irmãos mais novos brincavam por tardes inteiras sem notar a presença espectral.
Era um homem; muito alto com uma compleição arrogante. Não passava dos 30 anos, provavelmente, quando morreu. Se é que um dia tinha estado vivo. Ela costumava pensa-lo como um fantasma, mas nada dava essa certeza. Seus olhos mortos eram negros, podia ver de longe, e o que deveria ser seu cabelo era um emaranhado escorrido e cinza escuro, emoldurando o rosto esverdeado.
Layla o observou por horas e horas naquela tarde especialmente nebulosa. Estava sozinha na casa, pois seus pais levaram os dois pequenos ao parque, e a deixaram sozinha para que pudesse colocar as tarefas de casa da escola em dia. Com dezessete anos, no último ano escolar, ela ainda não sabia o que queria fazer de sua vida, e estudar já não era mais sua prioridade.
Preferia ver o fantasma pela janela.
O casal a enviou para terapias, para curandeiros e outros líderes religiosos. Nada tirava Layla da janela. O silencio da garota era instransponível, e seus olhos vidrados nunca se desviavam daquele ponto em particular.
Ali, parada de frente para ele, a garota pensou nisso tudo. No tanto de vida que vinha perdendo, nas coisas que estava deixando passar por si com a velocidade de um vento, sem nem prestar atenção nelas.
Pensou nos pais preocupados, nos irmãos pulando pelo parque, nas tardes de domingo em família. Acabou questionando a ausência deles ali, ao redor dela, deixando-a sozinha num momento que em que deveriam estar à espreita.   
Não fazia sentido.
Estreitou os olhos e piscou uma vez, percebendo que o fantasma estava mais próximo.
Pensou mais um pouco, sentindo o corpo ficar estranho, meio gelatinoso e frio, que nada daquilo fazia sentido. Tentou lembrar seu sobrenome, o nome de seus avós, a rua de sua casa, e nada lhe ocorreu. Tudo estava embaralhado.
Deu dois passos para trás, esbarrando na beirada da cama e caindo sentada, ainda mirando o lado de fora da enorme janela. Ele tinha chegado um pouco mais perto. Talvez uns três metros.
Pela primeira vez sentiu o coração disparar. Saiu correndo pela casa, olhando pelas paredes os retratos de família e os rostos de seus queridos se embaralhando nelas, sem saber diferenciar que era quem, quais eram seus nomes.
Correu escada abaixo, alcançou um telefone e discou o número que lhe veio em mente. O sinal do outro lado tocou, um de cada vez, com aqueles espaços compassados obsessivamente, daquela forma atemporal, quase arquetípica. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer época, o sinal de chamada no telefone será o mesmo.
Refletindo nisso sentiu novamente o corpo amolecer, percebendo-se muito leve e meio zonza. À sétima chamada, uma voz atendeu do outro lado.
— Layla? – perguntou a voz feminina do outro lado. — Filha, você está bem?
A garota apertou os olhos, aflita demais com aquela sensação estranha de que tudo se apagava dentro de si.
— Mãe? – questionou, baixinho, meio chorosa.
— Filha, o que há?
Layla se agarrou ao telefone, pensando se deveria mesmo confiar naquela voz irreconhecível do outro lado. Mas tinha lembrado seu número, não tinha?
— Estou enlouquecendo, mãe – choramingou, aflita. — Estou perdendo tudo dentro de mim.
A mulher do outro lado fez um silêncio preocupado antes de gritar por um nome estranho, que Layla se esqueceu imediatamente. Começou a chorar ali, grudada à parede, olhando para os próprios pés e estranhando-os.
Afastou o telefone da orelha, já se esquecendo do que estava fazendo ali. Lembrava vagamente de alguém do sexo feminino que estaria preocupada agora, mas já não se importava. A aflição de perder suas lembranças, seu ser, sua alma, era maior do que tudo.
Mas havia algo que não se esquecia. A presença do homem no jardim.
Dotada, repentinamente, de uma calma que só é possível em momentos de extremo desespero, ela endireitou a coluna e, a passos curtos e cuidadosos, olhou para a frente, para o corredor extenso que levava até a porta dos fundos e dava no jardim. Layla caminhou por ele, devagar, temerosa, mas ciente de que precisava fazer aquilo.
Já não reconhecia mais o mundo à sua volta. Aquelas paredes de madeira, o aspecto provinciano da decoração. Todo aquele espaço que parecia ter saído de um livro antigo sobre histórias de terror. Não sabia seu país, sua idade, sua origem.
Sabia que era Layla, e que um fantasma a esperava a alguns metros dali.
Saiu pela porta, os pés descalsos relando na grama úmida de fria. A neblina tapando a visão de tudo à sua frente. Via a silhueta, meio longe, tremula, como uma imagem virtual saindo do ar.
O ar que saia de sua boca congelava quando entrava em contato com a bruma branca de oxigênio nebuloso, e um arrepio de mal agouro lhe subia pela espinha.
 — Quem é você? – perguntou ao fantasma escondido na neblina.
Um silêncio ensurdecedor se fez. Layla pensou ter ouvido um ruído oco, mas talvez tivesse se enganado. Repetiu a pergunta, quase chorando, mas nada.
Ele se aproximou, aparecendo com seu rosto esverdeado e seus olhos de íris negra emoldurados por um branco intenso do globo ocular. Ela o viu de perto, tão assustador e morto como nunca.
— Precisa vir comigo, antes que seja tarde – disse ele, finalmente.
Sua voz era fria, sem emoção, mas o conteúdo era urgente. Mesmo se esforçando, Layla não o temia por completo.
— Quem é você? O que fez comigo? Por que não sei mais quem sou?
— Sou sua... sua morte.
A voz masculina grave emitiu ecos distorcidos em sua mente. Layla já estava vazia quase por completo, mas ainda sabia o que eram os conceitos básicos da vida. Nascimento, Morte... Sabia o que eram as palavras e seus significados.
— Não acredito em você. Não posso ir. Tenho que ficar.
O fantasma da morte se aproximou, chegando muito perto. O suficiente para a garota sentir as emanações frias vindas dele.
— Você já está morta há muito tempo. Se demorar mais um pouco, tudo o que um dia foi será apagado. Precisa vir até mim, ou...
— Ou?
— Vagará pela eternidade, condenada a ser o que os vivos temem. Uma sombra a se esgueirar no meio da noite, esperando por nada, sendo nada.
Layla sentiu o peito tremer. Não poderia ser verdade. Não estava morta.
Começou a chorar, desesperada, buscando alguma lembrança, uma justificativa para contra argumentar. Nada lhe ocorreu.
Seus soluços não comoviam o homem, e nem o vaziam reagir de forma irritada e impaciente. Layla o olhava entre as lágrimas, buscando algo, qualquer coisa. Ele a escrutinava sem expressão, como se estivesse lendo seus pensamentos e não os considerasse interessantes.
— Não posso estar morta... Não quero estar morta!
— Nem se lembra de quem é. Mas ainda há tempo. Se vir comigo, tudo se refará. Suas lembranças, seus pensamentos, sua alma... Só precisa vir. Agora.
Ele esticou a mão, mas ela não a pegou.
Olhou para o lado, ouvindo sussurros vindos do meio da neblina. Apertou os olhos e conseguiu enxergar um vulto quadrado, estático. Ignorou o homem e sua mão estendida, e caminhou até ali.
O sussurro virou um choro apertado, angustiado demais para irromper pelos olhos e pela garganta. Quem seria a pessoa a chorar? O que seria aquela pedra enorme e quadrada fincada no chão?
Chegou mais perto e postou-se ao lado da figura. Uma mulher, toda de preto, chorando curvada sobre um tumulo. Quis tocar seu ombro para lhe dizer que sentia muito, mas quando esticou seu braço para fazê-lo, viu a inscrição na lápide.
Layla Fonseca – 1996-2013.
Filha amada, irmã querida.
Recuou, horrorizada demais. Caiu de costas no chão úmido e viu suas vestes pela primeira vez. A camisola branca, manchada de sangue no centro, os pés brancos demais, cheios de veias roxas. Passou as mãos que tremiam pelo rosto e sentiu-o frio demais, o cabelo molhado de suor e orvalho.
Aos soluços aproximou-se da mulher, querendo reconhece-la. Ela chorava copiosamente, gemendo palavras inaudíveis. Layla chegou perto, engatinhando, viu o rosto coberto de lágrimas daquela mulher de meia idade que sofria de forma inconsolável.
— Por que fizeram isso com você, minha menina? – dizia ela, olhando para o chão e deixando as lágrimas caírem. Aquela voz de choro engasgado, sôfrego. — Não se vá! Não me deixe, filha!
Layla quis tocá-la, dizer que estava ali, que se lembraria dela se ficassem juntas. Mas não se lembrava. Não conseguia, por mais que quisesse. Aos poucos, tudo se perdia.
— Então é assim que é morrer... – sussurrou, ouvindo sua voz fantasmagórica demais.
Sentiu passos atrás de si, e sabia que era o fantasma da morte. Não o olhou, nem por um segundo, apenas mirou na mulher que devia ser sua mãe.
— Não quero estar morta.
Ele se colocou entre ela e a mulher, tapando a visão de Layla, que não protestou.
— A morte não faz sentido se não se lembrar do que é estar viva.
Layla então ergueu os olhos e viu a mão dele estendida; aquele membro plastificado com aparência escorregadia. Não queria tocá-la, mas sabia que suas palavras eram sabias.
— Antes de irmos, quero que me diga: como foi que aconteceu?
— Isso você terá que descobrir sozinha. 

Conto originalmente publicado na antologia Colorindo as Palavras, em 2015. 

Comentários

  1. Eu sou do contra. Adorei o final. As pessoas tendem a querer tudo mastigado, tudo explicado. Eu gosto de criar respostas para a pergunta que o final deixou pairando, gosto de supor, de imaginar as variações. É muito mais amplo do que um final pronto, foi aquilo e acabou. Cara! Esse final nem diz se acabou! Amei!!!
    Mesmo sendo um conto que escreveu como iniciante, gostei da forma angustiada como desenvolveu a narrativa, culminando nesse anti-clímax. Tá de parabéns, pra variar! ;)

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  2. Sabe que eu gostei do fim? Tô pensando em mil e uma mortes pra ela '-'

    Mulher, eu amo o que tu escreve. Está de parabéns, como sempre 😍😍😍

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  3. A escrita é impecável, instigante e prende totalmente a atenção até o último ponto final e nos deixa com gostinho de mistério de quero mais...

    Pena que durou tão pouco... Amei Ju!

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