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Ele não é Isso - Rodrigo Moreira

Essa madrugada finalizei a leitura de mais um livro nacional. Desde a primeira página lida, até fechar o livro no final da leitura, eu experimentei diversas sensações, dentre elas a certeza de que nossa literatura está cada vez mais incrível. 

Sinopse: Em pleno marco zero de São Paulo e escondida entre as paredes do edifício Nazareth, uma história, que antes fora de amor, vai se tornar sofrimento, tortura e medo. Em uma noite tranquila, Matias e sua esposa, Felícia, grávida de 6 meses, são atacados por um cão. Para ele, havia sido apenas um susto. Para ela, uma dolorida, mas curável, ferida na perna. No entanto, a ignorante certeza de que tudo acabará bem, desprezando a necessidade de cuidados médicos, causará sérias consequências. O que tal negligência ocasionará às vidas dessa família? Que destino um simples acidente revelará para o mundo? Matias, enclausurado em seu apartamento com seu filho, Júnior, viverá momentos tenebrosos e sombrios que mudarão para sempre a sua história e das pessoas à sua volta. Um pai, um filho e um destino amedrontador.

Uma história de terror, drama? Quem sabe! Pode-se dizer que este é, apenas, um relato sobre um ser que, há muito tempo, deixou de viver, mesmo que a função fisiológica denominada respirar diga o contrário.


O livro começa com cenas já de tirar o fôlego, descrevendo áudios que, mesmo ainda não tendo o contexto do que está havendo, me deixaram com o coração aos saltos. Podia ouvir a voz dos personagens, desesperados, e visualizar o cenário sufocante em que estavam. 
Logo em seguida somos levados ao cenário da capital São Paulo. Conhecemos Matias Castro, Júnior e Dona Celina. Três pessoas que trazem cargas emocionais intensas, e que são gente como a gente. Não são representantes personalidades que se destacam na sociedade, mas sim cidadãos comuns, que ao longo das páginas revelam seus sofrimentos, passagens pela vida que muitos de nós passamos também. E isso, para mim, foi um dos maiores méritos do livro. Sentimos que estamos lendo sobre nós, sobre uma tia, sobre um amigo, um conhecido ou até mesmo sobre o que poderíamos ser um dia. 
A trama envolve nuances de terror, drama e suspense psicológico. Durante a narrativa do passado dos personagens, principalmente Matias, eu ia compreendendo o porquê de seus comportamentos, e de sua dedicação extrema ao filho. Quando Júnior começa a mudar, quando seu corpo e seus comportamentos de transformam, a cegueira de Matias quanto à real dimensão do problema chega a angustiar o leitor, porém ao ver o passado obscuro, cheio de erros, sofrimentos e abusos de Matias, começamos a compreender que sua dedicação à Júnior pode ter outro significado. 
Os demais personagens tem uma grande importância, como a protetora e afetuosa Dona Celina, minha personagem favorita. Os flashbacks que mostram a vida dela dão um tom a mais para a história, nos fazem querem entrar na trama e salvá-la do perigo que sabemos que está à espreita. O que houve com Celina justifica o porquê ela não deixa Matias sozinho e insiste em cuidar de Júnior. 
Cada um deles está unido por uma teia emocional tecida com cuidado e apreço pelo autor, de forma a não deixar brechas para outro desfecho. 
Temos uma carga psicológica muito simbólica, unida como uma espiral em movimento ao plot de terror escolhido pelo autor. Não conseguiria falar muito sem revelar as surpresas que vão temperar a leitura, mas posso dizer que quanto mais avançava nas páginas e via que a grande reviravolta ia acontecer, mais eu compreendia que aquele horror, humano e palpável, está presente nas nossas vidas todos os dias. 
Como os sofrimentos que passamos, e as escolhas que fazemos, nos levam a estados de Morte em Vida, provocando consequências, até mesmo nefastas, na vida das pessoas que amamos e com quem nos importamos. Foi um efeito dominó, desde a morte da mãe de Matias no inicio do livro, ao desenrolar de seu conturbado relacionamento com Felícia, até a mordida do cachorro na mulher grávida. Dali em diante, a roda da fortuna estava girando num ritmo sem volta, sem parada, só engolindo o destino dos personagens. 
E do mundo. 
Não só as escolhas dos protagonistas, mas um pequeno passeio no parquinho, um descuido médico, uma negligência nos cuidados ou um excesso deles, tudo isso levou uma transformação em massa na trama. 

"Refletir no fato de que a natureza sempre encontra um meio, seja pela evolução natural da espécie ou por outras circunstâncias ligadas à negligência, soberba, mediocridade - que também podem ser incluídas em um tipo de evolução ainda mais "animal" - é chegar a hipótese de como a vida é insignificante no tempo e espaço." - Rodrigo Moreira. 

O Rodrigo tem uma escrita direta e muito visual, narrando os personagens do jeito como eles falam no dia a dia, de forma fluída e natural. Gostei muito de como ele desenvolveu profundamente os aspectos psicológicos de cada um, levando a um clímax que parecia inevitável, apesar de sombrio e frenético. O autor tem uma enorme capacidade de nos transportar para dentro da cena e trazer sensações que no cotidiano parecem simples e corriqueiras, levando em seguida a pontos altos de terror altamente descritivos - terror real, com cenas de abuso e violência, e o terror metalinguístico, com cenas intensas de arrepiar os cabelos da nuca, principalmente as que envolvem o personagem Júnior. Algumas foram angustiantes, outras penderam para o horror bruto, cruelmente lançado ao nosso conhecimento, para que não só cause medo, repulsa, mas nos faça refletir sobre aspectos da nossa vida e de nossas escolhas. 

Como o Rodrigo é psicólogo, e eu também, peguei-me tentando desvendar as teorias psicológicas que ele pode ter usado, e vi muito em Dona Celina e em Matias os meandros do determinismo psíquico psicanalítico, mas também o poder das escolhas proposto pelo existencialismo. É um livro rico, cheio de sensações e reflexões que vão pegar de jeito do leitor mais atento, ao mais distraído. 


No final temos uma parte separada que dá um tempero a mais para o livro e da qual eu gostei muito, muito mesmo. E também alguns anexos mostrando fotos da cidade de São Paulo que serviram de inspiração para o autor. 

Rodrigo, o que dizer para você depois dessa leitura incrível? Além de tudo o que foi supracitado, ressalto que seu livro é maravilhoso e me prendeu do início ao fim, e que o recomendarei com todas as forças. E não pare de escrever, por favor. Seu texto tem o poder de acordar nosso lado obscuro e nos levar à pensamentos que mantemos à mercê, no pré-consciente, muitas vezes desconfortáveis de inicio, mas que nos tiram da zona de conforto. 

Eu não sou isso. Você é? 
Leia Ele não é isso, e descubra por você mesmo. 














Comentários

  1. Queroooo muito ler!!c Garanti o meu na promoção linda da arwen de carnaval!

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